
Comissionamento que impulsiona resultado, não desconto: como desenhar uma política que recompensa lucro
Como desenhar uma política de comissionamento que recompensa lucro, não apenas volume.
Introdução
Você já viu um vendedor fechar uma venda gigante, comemorar a meta batida, mas quando olha o resultado final, a margem de lucro foi quase zero? Ou percebeu que sua equipe comercial tem uma tendência a conceder descontos agressivos para fechar negócios, corroendo a rentabilidade da empresa? Se essa situação soa familiar, saiba que a causa pode estar na estrutura da sua política de comissionamento.
Muitas empresas familiares de médio porte, na ânsia de crescer, adotam modelos de comissão que incentivam apenas o volume de vendas, criando um desalinhamento perigoso entre o que é bom para o vendedor e o que é bom para a empresa. A profissionalização da gestão de vendas passa, necessariamente, por redesenhar esses incentivos para que eles impulsionem o resultado real: o lucro.
Este artigo abordará, de forma prática e consultiva, como construir uma política de comissionamento que recompensa a venda de valor, a margem e a estratégia, e não apenas o desconto.
1. A miopia do faturamento: o problema dos modelos tradicionais
O modelo de comissionamento mais comum é o de um percentual fixo sobre a receita bruta. Por exemplo, 2% sobre o valor total da nota fiscal. Embora seja simples de calcular, esse modelo sofre de uma falha fundamental: ele ignora a rentabilidade.
Para o vendedor, uma venda de R$ 100.000 com 10% de margem de lucro gera a mesma comissão que uma venda de R$ 100.000 com 40% de margem. Qual ele irá priorizar? A que for mais fácil e rápida de fechar, o que geralmente envolve conceder descontos.
Os principais problemas gerados por esse modelo incluem:
- Canibalização da margem: Vendedores são incentivados a dar descontos para atingir metas de faturamento, mesmo que isso prejudique a lucratividade da empresa.
- Foco em produtos “fáceis”: A equipe tende a vender produtos de maior giro e menor margem, negligenciando itens mais estratégicos ou de maior valor agregado.
- Desalinhamento estratégico: O vendedor é recompensado por volume, enquanto a empresa precisa de lucro para reinvestir, crescer e se sustentar.
- Cultura do desconto: A negociação com o cliente passa a girar em torno do preço, e não do valor, enfraquecendo a marca e o posicionamento da empresa.
Para sair dessa armadilha, é preciso mudar a pergunta fundamental de “quanto vendemos?” para “como e o que vendemos?”.
2. Os pilares de um comissionamento estratégico
Uma política de comissionamento eficaz deve alinhar os interesses do vendedor com os objetivos estratégicos da empresa. Ela deve ser um instrumento de gestão, e não apenas uma despesa. Para isso, ela deve se apoiar em pilares que vão além da receita bruta.
2.1. Margem de contribuição como base
Este é o pilar mais importante. Em vez de comissionar sobre a receita, comissione sobre a margem de contribuição da venda. Como vimos em artigos como “Margem de contribuição por canal: onde o lucro nasce”, a margem de contribuição (receita – custos e despesas variáveis) é o que realmente “sobra” para pagar os custos fixos e gerar lucro.
- Como funciona: A comissão passa a ser um percentual do lucro bruto ou da margem de contribuição daquela venda específica.
- Impacto: O vendedor agora tem interesse direto em defender o preço e evitar descontos, pois sua remuneração está atrelada à rentabilidade da venda. Ele se torna um “guardião da margem”.
2.2. Mix de produtos e/ou serviços
Sua empresa provavelmente tem produtos ou serviços mais estratégicos, com maior margem ou que abrem portas para novos mercados. O comissionamento deve incentivar a venda desses itens.
- Como funciona: Crie “aceleradores” ou “kickers”. Vendas de produtos da “linha A” (estratégica) pagam um percentual de comissão maior do que vendas de produtos da “linha C” (de menor margem).
- Impacto: A equipe de vendas passa a direcionar seus esforços para o portfólio que mais interessa à empresa, atuando de forma mais estratégica.
2.3. Aquisição de novos clientes (Hunter vs. Farmer)
O esforço para conquistar um novo cliente (“hunter”) é geralmente maior do que para manter um cliente existente (“farmer”). Sua política de comissionamento deve refletir isso.
- Como funciona: Ofereça uma comissão maior para a “primeira venda” a um novo cliente ou durante os primeiros meses de relacionamento. A comissão sobre vendas recorrentes para o mesmo cliente pode ser menor.
- Impacto: Incentiva a prospecção e a expansão da base de clientes, que é vital para o crescimento de longo prazo.
2.4. Gatilhos e redutores por política de preços
Este pilar ataca diretamente a cultura do desconto.
- Como funciona: Estabeleça faixas de desconto e vincule-as à comissão.
- Exemplo:
- Venda sem desconto (preço de tabela): comissão de 10% sobre a margem.
- Venda com até 5% de desconto: comissão de 8% sobre a margem.
- Venda com 5% a 10% de desconto: comissão de 5% sobre a margem.
- Venda com mais de 10% de desconto: comissão de 2% sobre a margem (ou requer aprovação da diretoria).
- Impacto: O vendedor pensa duas vezes antes de conceder um desconto, pois isso afeta diretamente sua remuneração. Ele passa a defender o valor do produto, e não a brigar por preço.
3. Roteiro prático: como desenhar seu modelo em 5 passos
Implementar uma nova política de comissionamento requer um método claro e transparente.
Passo 1: Defina os objetivos estratégicos
Antes de pensar em números, pergunte-se: o que eu quero que minha equipe de vendas faça nos próximos 12 meses?
- Aumentar a lucratividade geral?
- Introduzir um novo produto no mercado?
- Expandir para uma nova região?
- Reduzir a dependência de poucos clientes?
Os objetivos definirão quais comportamentos você precisa incentivar.
Passo 2: Escolha as métricas e os pilares
Com base nos objetivos, selecione os pilares que farão parte do seu modelo. Você não precisa usar todos. Comece com 2 ou 3.
- Exemplo: Se o objetivo é aumentar a lucratividade, o pilar principal será a margem de contribuição, combinado com gatilhos por política de preços.
Passo 3: Desenhe a fórmula e as regras
Crie uma fórmula de cálculo que seja clara e compreensível. A simplicidade é fundamental. O vendedor precisa ser capaz de estimar sua própria comissão.
- Exemplo de fórmula simples: Comissão = Margem de Contribuição da Venda x Percentual Base x Fator de Mix de Produto x Fator de Desconto
Documente as regras de forma clara: o que é considerado “novo cliente”? Quais produtos pertencem a cada linha? Quais são as faixas de desconto?
Passo 4: Simule e teste
Esta é a etapa mais importante e muitas vezes negligenciada. Antes de anunciar o novo modelo, faça simulações.
- O que fazer: Pegue os dados de vendas dos últimos 6 ou 12 meses e aplique a nova fórmula.
- Como ficaria a comissão de cada vendedor?
- Quem ganharia mais? Quem ganharia menos? Isso está alinhado com a performance que você valoriza?
- O custo total com comissões para a empresa aumentaria ou diminuiria?
- Ajuste: Use os resultados da simulação para calibrar os percentuais e as regras, buscando um modelo que seja justo, motivador e financeiramente sustentável para a empresa.
Passo 5: Comunique com transparência e treine a equipe
Ninguém gosta de mudanças em sua remuneração sem entender o porquê.
- O que fazer:
- Marque uma reunião com toda a equipe de vendas.
- Apresente o “porquê” da mudança: alinhar metas, valorizar a rentabilidade, fortalecer a empresa.
- Explique detalhadamente como o novo modelo funciona, com exemplos práticos.
- Mostre as simulações (de forma anônima, se preferir) para demonstrar que o modelo recompensa a boa performance.
- Ofereça treinamento sobre como calcular a margem, como argumentar valor em vez de preço e como focar nos produtos estratégicos.
4. Erros comuns na implementação (e como evitá-los)
Erro 1: Complexidade excessiva
Um modelo com muitas variáveis e regras difíceis de entender desmotiva e gera desconfiança.
Como evitar: Comece simples. É melhor ter um modelo com 2 pilares bem implementados do que um com 5 que ninguém entende.
Erro 2: Falta de simulação
Lançar um modelo sem testar pode levar a resultados inesperados, como custos excessivos para a empresa ou desmotivação da equipe.
Como evitar: Nunca pule a etapa de simulação. Use dados reais para prever o impacto.
Erro 3: Comunicação falha
Impor o novo modelo sem explicar os motivos e os benefícios gera resistência.
Como evitar: Invista tempo em uma comunicação transparente, mostrando como o novo modelo é uma relação “ganha-ganha”.
Erro 4: Não ter dados confiáveis
Se você não consegue calcular a margem de contribuição de cada venda de forma rápida e precisa, o modelo não funcionará.
Como evitar: Antes de implementar, garanta que seus sistemas (ERP, financeiro) estejam organizados para fornecer os dados necessários. A estruturação de um DRE gerencial, como discutido no artigo “Foco no lucro: como implementar um DRE gerencial simples e útil”, é um pré-requisito.
5. Caso prático: a virada de chave na distribuidora
Uma distribuidora de produtos industriais comissionava sua equipe com 1,5% sobre o faturamento. O resultado era uma guerra de preços constante, margens espremidas e vendedores focados em produtos de baixo valor e alto giro.
Implementação do novo modelo:
- Pilares escolhidos: Margem de contribuição e mix de produtos.
- Nova fórmula:
- Produtos da “Linha A” (alta tecnologia e margem): 10% de comissão sobre a margem de contribuição.
- Produtos da “Linha B” (padrão): 7% de comissão sobre a margem de contribuição.
- Simulação: Mostrou que os vendedores que já focavam em soluções de maior valor teriam um aumento significativo na remuneração, enquanto os que apenas “tiravam pedidos” de baixo valor teriam que adaptar sua abordagem.
- Comunicação e treinamento: A empresa realizou workshops sobre os novos produtos da Linha A e treinou a equipe em técnicas de venda consultiva.
Resultados em 6 meses:
- A receita total se manteve estável, mas a margem de lucro média da empresa aumentou em 4 pontos percentuais.
- A participação da “Linha A” no faturamento saltou de 15% para 35%.
- Os melhores vendedores, que abraçaram o novo modelo, aumentaram sua remuneração em mais de 20%.
- A cultura da equipe mudou de “vendedor de preço” para “consultor de soluções”.
6. Conclusão: um instrumento de gestão estratégica
Uma política de comissionamento bem desenhada é muito mais do que uma forma de remunerar sua equipe de vendas. É um poderoso instrumento de gestão estratégica. Ela comunica o que a empresa valoriza, direciona os esforços da equipe para o que realmente importa e alinha os interesses de todos em torno de um objetivo comum: o crescimento sustentável e lucrativo.
Para começar a transformar seu modelo de comissionamento:
- Diagnostique: Sua política atual recompensa faturamento ou lucro?
- Defina objetivos: O que você quer que sua equipe de vendas faça?
- Escolha os pilares: Comece com margem de contribuição e mais um ou dois pilares.
- Simule: Teste o modelo com dados reais antes de lançar.
- Comunique: Seja transparente e invista em treinamento.
Lembre-se: Cadência e rituais sustentam a gestão; sem cadência, os números não viram ação. A revisão da política de comissionamento deve ser parte dos seus rituais anuais de planejamento.
Se sua empresa busca profissionalizar a gestão de vendas e construir um modelo de remuneração que impulsione resultados reais, a VBMC Consultores tem mais de 40 anos de experiência em estruturar áreas comerciais e financeiras, alinhando incentivos com a estratégia do negócio. Nossa expertise pode apoiar sua empresa na criação de um modelo justo, motivador e lucrativo. Que tal conversar com nossos especialistas para entender como aplicar esta metodologia no seu contexto e otimizar sua gestão de vendas? Entre em contato conosco em vbmc.com.br/contato
